quinta-feira, 5 de abril de 2012

Via Sacra do Povo da Rua


Conversão e solidariedade: Gestos concretos



Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de S.Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, de 27.03.2012



Já no primeiro dia da Quaresma ouvimos  do profeta Isaías a denúncia  dos jejuns e penitências que não agradam a Deus, e o anúncio daqueles que, de fato, agradam a Deus (cf Is 58,1-12). Penitências e jejuns apenas  exteriores, sem verdadeira conversão e mudança de vida, sem “obediência a Deus”, não agradam a Deus.
O profeta refere-se a algumas  atitudes, que devem ser fruto da penitência: quebrar as cadeias (condenações) injustas, desligar as amarras do jugo (da escravidão), tornar livres os detidos (direitos e dignidade humana), romper todo tipo de sujeição (desprezo, violência), repartir o pão com os famintos, acolher os pobres e peregrinos, vestir quem está nu, prestar socorro ao necessitado (precisa explicar?), deixar de lado os hábitos maldosos... Tantas outras situações poderiam ser acrescentadas hoje!
A palavra do Profeta continua valendo. Jesus a confirmou no Evangelho, de diversos modos (cf Mt 25) e a Igreja recomenda as obras de misericórdia, como sinal de nossa conversão a Deus e da autenticidade de nossa fé. Fé verdadeira em Deus, vida honesta e justa, respeito e atitude  misericordiosa para com o próximo são inseparáveis. A Quaresma nos convida a crescer na autenticidade de nossas práticas religiosas e a produzir frutos autênticos de conversão.
Chegando ao final do caminho quaresmal, a Igreja nos chama a fazermos especialmente dois  gestos concretos de fraternidade e solidariedade cristã. No Domingo de Ramos, com o encerramento da Campanha da Fraternidade, somos convidados a participar generosamente da Coleta da Solidariedade, feita em todas as igrejas, em todas as celebrações. Esta deveria ser diversa das coletas que se fazem, normalmente, nas nossas celebrações. Desta vez, o gesto deve ser fruto e expressão da nossa penitência e
conversão quaresmal. Se nos abstivemos de algo – bebida, comida, cigarro que seja -, isso não deveria reverter simplesmente em “economia pessoal”... De alguma forma, foi “oferta a Deus” e já não nos pertence: deve ser partilhado com os necessitados.
A Campanha da Fraternidade deste ano pede que sejamos fraternos  com  os doentes pobres, que dependem  do SUS e  de políticas públicas de saúde para serem bem atendidos; o fruto da coleta da solidariedade será usado para apoiar muitas iniciativas e projetos, que  visam alcançar esse objetivo;  o gesto também corresponde à obra de misericórdia – “cuidar dos doentes” -; e tem por trás a palavra de Jesus: “estive doente, e cuidastes de mim”...
O outro gesto de solidariedade cristã concreta nos é pedido na Sexta Feira Santa: é a coleta para os “Lugares Santos”, destinada a socorrer as necessidades dos cristãos e da própria Igreja nos lugares bíblicos, onde nossa fé teve origem, onde “outrora, muitas vezes e de muitos modos, Deus falou a nossos pais pelos profetas”, e onde, chegada a plenitude dos tempos, Deus “falou-nos por meio do Filho” (cf Hb 1,1-2).

terça-feira, 3 de abril de 2012

Exercícios Espirituais de Semana Santa para Jovens - Anchietanum


COLETA PRO TERRA SANCTA


CARTA À HIERARQUIA CATÓLICA
POR OCASIÃO DA "COLETA PRO TERRA SANCTA"
QUARESMA DE 2012

Excelência Reverendíssima:
A espera quaresmal da Páscoa do Senhor é uma ocasião propícia para sensibilizar toda a Igreja Católica a favor da Terra Santa, promovendo iniciativas especiais de oração e de caridade fraterna.

Dirijo, portanto, um cordial convite a todas as comunidades eclesiais para que estejam do lado dos cristãos de Jerusalém, Israel e Palestina, como os países circunstantes, Jordânia, Síria, Líbano, Chipre, Egipto, que juntas compõem aquela Terra abençoada. O Filho de Deus feito homem, depois de tê-la cruzado para anunciar o Reino e ter confirmando a palavra com sinais e prodígios (cf. At 2,22), subiu à Cidade Santa para se imolar: ele sofreu, morreu na Cruz, ressuscitou e nos deu o Espírito. Desde então, todo o cristão se encontra a si próprio naquela cidade e naquela Terra. Isto é possível porque ainda hoje os pastores constituídos pelo Senhor Jesus lá acolhem os irmãos e as irmãs na fé para celebrar o amor d'Aquele que "faz novas todas as coisas" (Ap 21,5).

A Congregação para as Igrejas Orientais recorda bispos do mundo inteiro o constante pedido do Papa Bento XVI de que a missão da Igreja nos Lugares Santos seja generosamente sustentada. É uma missão especificamente pastoral, mas ao mesmo tempo oferece a todos indistintamente um louvável serviço social. Assim, cresce a fraternidade que abate as divisões e as discriminações para inaugurar um sempre renovado diálogo ecumênico e a cooperação inter-religiosa. Isto constitui uma admirável obra de paz e de reconciliação, tão mais necessária hoje, preocupados que estamos com o Santo Padre "pelas as populações dos países em que se sucedem tensões e violências, em particular na Síria e na Terra Santa" (Discurso aos Embaixadores para a Santa Sé, 09 de Janeiro de 2012). E mesmo depois de Sua Santidade orou
fervorosamente pela Síria, renovando "o pressuroso apelo a por fim à violência ... para o bem comum da sociedade e da Região" (Angelus de domingo, 12 de Fevereiro, 2012).


O dia que os Papas escolheram para a Collecta pro Terra Sancta é a sexta-feira antes da Páscoa, embora cada comunidade possa escolher outra ocasião adequada para propor aos fiéis a iniciativa de solidariedade. A Sexta-Feira Santa deste ano parece interpretar ainda mais as necessidades dos pastores e os fiéis, que se encontram nos sofrimentos de todo o Oriente Médio. Para os discípulos de Cristo as hostilidades são o pão quotidiano que alimenta a fé e que, por vezes, fazem ressoar o eco do martírio em toda a sua atualidade. A emigração de cristãos tem se agravado pela falta de paz, que tenta empobrecer a esperança,transformando-se em medo de estar sozinho perante um futuro que parece não existir, senão como um abandono da própria pátria.